A história da vida de Aquiles e da Guerra de Tróia, desta vez pela voz do amado de Aquiles, Pátroclo, o "truque" que Madeline Miller usou para tentar apresentar esta história, já mil vezes recontadas, sob uma nova perspetiva. Pátroclo é descrito como um fraco, quase feminino, que se sacrifica por Aquiles, vestindo-lhe a armadura para se lançar contra Heitor, apenas para salvar Agammemnon e os gregos, sem deixar que a honra de Aquiles seja manchada. Aquiles, por seu lado, é descrito como um semideus, invencível, mas também teimoso e obstinado, que acaba por morrer (curiosamente, trespassado no peito e não atingido no famoso calcanhar) para vingar a morte de Pátroclo.É um livro de escrita e narrativa simples, uma escrita que parece feminina pela suavidade e pela forma pouco musculada como são descritas as batalhas e os confrontos. Um livro que tem os seus pontos altos, a nível de criatividade e de tensão dramática, nos anos que os dois rapazes passaram com Quíron, o velho e sábio centauro, e, já na parte final, quando Tétis, a deusa mãe de Aquiles, que não queria Pátroclo para "genro", permite que a alma deste, que vagueava no limbo, se junte para toda a eternidade à do filho no submundo onde repousam as almas.
Esta é a biografia "escondida" de E. M. Forster, em que a vida e a obra do grande autor são vistas (pela primeira vez?) à luz da sua homossexualidade. John Sutherland, na Literary Review, pergunta-se sobre esta biografia de Forster: «Será que quero mesmo saber isto tudo?» e prossegue: «Em minha opinião, este livro mancha a obra de Forster. Não podemos ficar gratos por isso. Mas Moffat (a autora da biografia) fez um trabalho detalhado, e esta é, de certa forma, uma "nova vida"». Uma nova vida que precisava ser contada, dizemos nós... e diz Forster, que deixou indicações detalhadas para evitar a destruição, após a sua morte, dos seus diários secretos, dos seus textos não publicados de caráter homossexual (o romance e vários contos), mencionando também que desejava que toda esta documentação pudesse ser consultado por quem o solicitasse.Foi também o próprio Forster que nos indicou o quão central na sua vida e na sua escrita era a sua sexualidade: "Eu poderia ter sido um escritor mais famoso, se tivesse escrito mais, ou melhor, se tivesse publicado mais, mas a questão sexual impediu-me disso... [...] Aos 85 anos sinto-me tão irritado com a Sociedade por me ter obrigado a desperdiçar a vida ao condenar criminalmente a homossexualidade. Os subterfúgios, a auto-recriminação que poderia ter sido evitada."E o trabalho de investigação de Moffat é fabuloso, a sua escrita é sempre rica mas fluente, o seu interesse no detalhe e a sua seleção de citações e apontamentos, de Forster ou dos seus amigos e correspondentes, é preciosa, como no pequeno poema de J.R Ackerley (que tocou fundo um Forster deprimido pela morte do seu amado Mohammed):"Seeking my deadHearing him yetSaying "Good-bye!"Hearing his sigh,Murmured so low,"Ah, but I know...You will forget."ou nas citações de Forster sobre a sua filosofia de vida, como: "How does anything end? One should act as if things last", ou simplesmente, algumas pinceladas da sua escrita, como quando ele se deixa deslumbrar, numa praia deserta do Egito, aos 38 anos e ainda virgem, pela nudez de um egípcio: "I was bathing myself on the deserted beach and a man galloped up on a donkey, stripped, and tried to pull it into the water with him. The lines of a straining nude have always seemed academic to me up to now but hereafter I shall remember red light on them, and ripples like grey ostrich-feathers breaking on the sand." Esta é, sem dúvida, uma obra monumental, excelentemente escrita e sumamente interessante, porque a vida de Forster o é.
É um pequeno livro, mas muito interessante (os livros não se medem aos palmos...) e muito bem escrito, sobre [a:Marcel Proust|233619|Marcel Proust|http://d.gr-assets.com/authors/1189444962p2/233619.jpg] e a sua obra-prima, [b:Em Busca do Tempo Perdido|4663992|Do Lado de Swann (Em Busca do Tempo Perdido, #1)|Marcel Proust|http://d.gr-assets.com/books/1269259146s/4663992.jpg|4830806] em que [a:Antonio Mega Ferreira|1247095|Antonio Mega Ferreira|http://d.gr-assets.com/authors/1303684071p2/1247095.jpg] procura apresentar a temática da obra e a história da sua escrita, traçando paralelos entre a vida de Proust e a dos personagens do romance.Percebe-se que Mega Ferreira é um apaixonado da obra e que acredita que o autor se inspirou na sua vida pessoal para ir fabricando a teia com que foi escrevendo estes sete volumes na parte final da sua vida. Para Mega Ferreira, uma das chaves principais da interpretação da obra é bem ilustrada no volume "Sodoma e Gomorra", em que os temas centrais são a homossexualidade masculina, do Barão de Charlus e de Jupien, e a feminina, de Albertine (inspirada em Alfred, o motorista por quem Proust se apaixonou), a mulher por quem o narrador (que será o próprio Proust) se apaixona e de quem é fortemente ciumento por acreditar que ela tem amores lésbicos.Recomendo para quem não leu Proust (é um bom aperitivo e enquadra a leitura), ou para quem já leu e quer começar a aprofundar o que leu e a explorar a extensa bibliografia sobre esta "imensa" obra e sobre um dos maiores escritores de sempre.
As memórias de Joey Sylvia, José Silva antes de emigrar dos Açores para a Califórnia, quando já octogenário, preso numa cadeira de rodas num lar para idosos, passa em revista a sua vida e a da sua família. Ao recordar-se de como viveu, Joey conta-nos, realmente, como foi morrendo: o fim da nostalgia pela sua ilha natal, a perda prematura, vítima de SIDA, de John, o seu filho mais novo, gay, e a morte da sua mulher, Mary, o pilar da sua vida, tudo contado com o distanciamento e a resignação de alguém que já desistiu de viver e não tem nada mais a perder.A escrita da Álamo está mais apurada, menos pretensiosa, sempre rica e surpreendente, e cola-nos à leitura deste belo e emocionante romance.
Nesta reflexão sobre a "humanidade" de personagens bíblicos, Tóibín questiona-se sobre o que terá sentido Maria, a mãe de Jesus, assistindo ao caminho do seu filho para a cruz, à sua morte e à subsequente fabricação do mito religioso. E a resposta é incredulidade, raiva, dor, medo e incompreensão: esta Maria de Tóibín é, acima de tudo, uma mãe de carne e osso, que não tem nada a ver com a imagem de serenidade abnegada e algo insensível, já quase divina, pintada pela Igreja Católica.Trata-se de um conto longo, escrito num tom de autoreflexão e confidência que faz lembrar [b:Memoirs of Hadrian|12172|Memoirs of Hadrian|Marguerite Yourcenar|http://d.gr-assets.com/books/1348993375s/12172.jpg|1064574], com alguns episódios surpreendentes e vívidos, como o da ressureição de Lázaro.
Um mosaico muito interessante sobre livros, autores, a leitura e o sector da edi����o, pelo editor Francisco Vale, que re��ne um conjunto de textos, alguns, mais curtos, publicados no blogue da sua Rel��gio D'��gua sobre temas gerais de atualidade (2009), outros, mais longos e mais refletidos, in��ditos ou j�� publicados como pref��cios ou entrevistas. Mas pelo facto de ser apenas uma colet��nea de textos, fica-nos "��gua na boca" por uma obra mais ambiciosa, que aborde de forma mais sistem��tica a vis��o e as ideias do autor sobre esta tem��tica.